O sertão conquistado: o espaço paranaense segundo as listas nominativas de habitantes de 1836 a part

Leonardo Barleta. Universidade Federal do Paraná

A proposta desta comunicação é explorar dados obtidos nos censo de 1836 da região do Paraná a partir da espacialização de indicadores demográficos e socioecônimos disponíveis. Assim, busca-se construir uma metodologia de análise e representação com a organização de um Sistema de Informação Geográfica (SIG) trazendo indicadores que são distribuídos espacialmente. Da aplicação desta metodologia, é constituído um conjunto de mapas sendo ponto de partida (retrospectivamente) para compreender como aspectos políticos, econômicos e sociais conformaram determinada configuração espacial. O recorte temporal se dá quando a documentação muda significativamente seu caráter, saindo da esfera militar e entrando na municipal sendo atribuição dos juízes de paz. Sedimenta-se nesta lista uma série de processos históricos que retoma a definição de Milton Santos de que “o espaço é a acumulação desigual dos tempos”.

Em 1765 são definidos novos rumos para a restaurada Capitania de São Paulo (que englobava o Paraná). Entre sua dissolução e vinculação a administração fluminense (1748) até a data de sua restauração, o contexto geopolítico na região meridional da América Lusa tornou-se cada vez mais conflituoso. O Tratado de Madri não consegue por fim as questões de limites entre as coroas lusa e castelhana, tornando necessário a formulação de novos acordos nos anos posteriores: El Pardo (1761), Santo Idelfonso (1777) e Badajoz (1801). Nesse interim, a Colônia do Sacramento é invadida pelos espanhóis, acirrando o contexto beligerante já delineado. Assim, a salvaguarda do território americano entra no rol de preocupações da administração, formulando um conjunto de ações empreendidas em áreas fronteiriças a sul e a oeste com os espanhóis – como a capitania paulista.

Estas preocupações serão viabilizadas pelos fundamentos das reformas ilustradas levadas a cabo por Marques de Pombal em meados do século XVIII. Neste momento, a capitania paulista se encontra, nas palavras do novo governador, “morta e ressuscitá-la é mais difícil que criá-la de novo”. Assim, D. Luis Antonio de Souza ao assumir o cargo de governador recebe a missão de tirar esta área do império português do atraso que se encontrava elencando entre seus objetivos a manutenção das posses territoriais da América.

Nota-se a mudança de atitude em relação à população e ao território, que passam a figurar como bens nacionais. Deveriam ser conhecido e suas potencialidades exploradas ao máximo. O exercício da soberania tornou-se inseparável do conhecimento do território e dos habitantes. Este princípio norteia as ações de Morgado de Mateus – a formulação das listas nominativas de habitantes – que demonstram essa nova relação entre a administração e o espaço (população + território). Esta documentação é composta por censos nominais, pretensamente anuais, formulados pelos corpos militares de ordenanças que trazem dados sobre as pessoas que ali habitavam, como nome, idade, sexo, estado civil, condição jurídica, ocupação, produção, entre outros.

O resultado imediato do projeto – para além da própria proposição de uma metodologia em SIG – é um conjunto cartográfico que permitiu refletir sobre a constituição espacial do Paraná em 1836, dando indicadores do resultado de uma série de conjunturas se acumularam na conformação desta configuração.